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Alma do Diabo

Alma do Diabo

Adília Lopes - Avó Alda

24.11.22

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"Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar
conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda"

Lopes, Adília. Dobra : poesia reunida, 1983-2021. 3 ª ed. - Porto : Assírio & Alvim, 2021.

Por: Celeste Sampaio

Honoré de Balzac . A mulher madura e a jovem

23.11.22

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“Uma mulher de trinta anos possui atractivos irresistíveis para um rapaz. Uma rapariga tem demasiadas ilusões, demasiada inexperiência e o sexo é grande cúmplice do seu amor, para que foi alvo, enquanto uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede, a outra escolhe. Dotada de um saber quase sempre duramente pago por desgostos, dando-se a mulher experiente parece dar mais do que a si própria.”

 

BALZAC, Honoré de. A mulher de trinta anos. 1ª ed. Matosinhos: Cardume editores, 2017.

 

Por: Celeste Sampaio

A piada como escape ao difícil acto de pensar

22.11.22

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Conversavam assim Jacques com o seu amo: “Na vida meu, amo, não sabemos com o que havemos de alegrar-nos e com o que havemos de afligir-nos…caminhamos pela noite por baixo do que está escrito lá em cima, igualmente insensatos dos nossos desejos, na nossa alegria e na nossa aflição. Quando choro verifico muitas vezes que sou um tolo - E quando ris? - Verifico ainda que sou um tolo, porém, não posso deixar de chorar nem de rir: e é isso que me enfurece - o que tentaste? - Troçar de tudo, ah se eu tivesse conseguido. - Para que te serviria? - Para me livrar de preocupações, para não ter necessidade de mais nada, para me tornar senhor de mim mesmo…” Um objecto ou um sujeito alvo de troça perde o ímpeto sagrado, a piada contraria a seriedade do mundo, no fundo, coloca perguntas ao inquestionável. Tal como o estimado Jacques sugere, rir é reagir às fúrias quotidianas e encontrar graça na nossa trivial existência. 

Dos recônditos tempos do teatro grego até aos vários programas na televisão de hoje, a comédia soube integrar-se como elemento indispensável ao gosto geral. Depois de um dia farto ninguém vai ler Hegel para o sofá, o que interessa por norma é “ocupar-o-tempo-sem-pensar” pois a cabeça já cumpriu a sua função. Por isso, antes de fazer stand by, é sempre apetecível uma boa novela, uma viagem pelas teclas virtuais do telemóvel sob a forma de redes sociais ou jogos, ou mesmo, uma boa trapaça. Portanto, quem hoje vê programas relacionados com humor não são os mesmo espectadores alternativos de há vinte anos atrás, que se refugiavam nos canais por cabo ou noutros acessos marginais para obterem conteúdos “fora da caixa”, que continham assuntos danosos que só por isso justificava o seu afastamento do público principal, de forma a não os ferir, ou, numa explicação mais escorreita, a não chegar a um público ainda não preparado. Foi neste quadro que surgiram novas figuras no palco humorístico nacional como o prodigioso Ricardo Araújo Pereira, o nosso “John Stewart português”. 

Desde as primeiras aparições em programas como “Perfeito Anormal” ou em stand-up comedy underground, como em argumentos criados a partir das Produções Fictícias que alimentaram o rei do humor na altura, Herman José, até aos programas em horário nobre que o elevam a umas das principais figuras da televisão, Ricardo Araújo Pereira soube jogar com as suas escolhas, bem como, jogar com as escolhas que o público exigia. No contexto do espectador actual, que deseja ver o humor-sem-dor e sem-ser-preciso-pensar-muito, o seu conteúdo alimenta os gostos comuns. Nos seus vários programas, iguais em conteúdo, diferentes no nomes, brinca com os principais dirigentes políticos, apanha-lhes as “quedas” sob a forma de gaffe, descontexto, dislexia, ou mesmo autenticidade, depois entrevista-os com perguntas engraçadas, num teatro de terceira categoria onde o entrevistado já decorou as respostas que vão ficar bem. A juntar a isto, insere nas suas equipas humoristas emergentes, que lhe possibilitam obter um trabalho hábil com direcção para outras gerações. Ricardo Araújo Pereira, construiu uma personagem que já ultrapassou o mero humorista: debate política, desporto, religião, literatura e escreve para jornais e revistas com regularidade assinalável. Ninguém tem dúvidas do seu enorme talento de construção de humor, como também não se nega o trajecto que se iniciou nos subúrbios - onde figuras, que hoje se sentam ao seu lado em programas de tv, eram facilmente alvo do bullying cómico, ou, onde se criavam registos que marcavam gerações e elevavam o humor a outra coisa - e que estacionou num qualquer altar da fama - usa um pastiche já gasto, numa repetição de si próprio, suaviza as palavras numa linguagem de uma aluno gozão de quem os professores acham imensa piada. Estar num programa seu, ou ser por si entrevistado passou a ser um dever a quem augura um cargo de poder. A sua popularidade é tal que uma crítica ou chacota a alguma personagem num dos seus programas passou a ter ressonância nas opiniões. Se a escala de quem vê é gigante, os estilhaços do seu humor chegam a todo o lado. O humor, quando faz revista à actualidade, oferece um olhar maniqueísta sobre determinados assuntos, o que “ajuda” quem escuta a formular uma opinião leve e desprovida de rigor interpretativo, visão essa a de quem escreve. Com isto, para nos mantermos informados e com opinião, basta olhar para as piadas e com o riso marcarmos a nossa posição perante o nosso redor. Tal como nos lembra Jacques, o riso serve para nos livrarmos das preocupações.

 

Por: Dinis de Sousa Reis

Rilke. Da Primeira Elegia

22.11.22

 

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“Quem, se eu gritasse, me ouviria de entre as ordens
dos anjos? e mesmo que um deles, de repente,
me cingisse ao coração: eu desfaleceria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é mais
do que o começo do terrível, que ainda mal suportamos
e deslumbra-nos assim porque, imperturbado,
desdenha aniquilar-nos. Todo o anjo é terrível.”

Rilke, Rainer Maria. Elegias de Duíno e Os Sonetos a Orfeu. 1ª ed. - Lisboa : Quetzal, 2017

Por: Celeste Sampaio

Impressões em três linhas

22.11.22

Parece que no Catar não se respeita a situação frágil dos migrantes - são explorados como trabalho escravo. Como defesa dos altos valores da nossa nação o presidente Marcelo deveria boicotar a sua presença no certame. Bem como boicotar as visitas a Odemira.

Por: Filipe Fidalgo

De Rilke para Franz Kappus

21.11.22

 

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"Na mais silenciosa hora da sua noite, pergunte a si mesmo: tenho de escrever? Escave dentro de si à procura de uma resposta profunda. Se lhe for permitido encarar essa pergunta séria com um simples e forte "tenho", então construa a sua vida segundo essa necessidade; a sua vida, até ao âmago da hora mais indiferente e limitada, terá de se tornar um sinal e um testemunho para esse ímpeto. De seguida aproxime-se da natureza. Tente então, como um primeiro homem, dizer o que vê e experimenta e ama e perde."

Rilke, Rainer Maria. Cartas a Um Jovem Poeta. 1ª ed. - Lisboa : Antígona, 2016. 

Por: Celeste Sampaio

 

 

Isaiah Berlin . O Grande Homem

20.11.22

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Mas o que são grandes homens? São seres humanos comuns, suficientemente ignorantes e fúteis para aceitarem a responsabilidade pela vida da sociedade, indivíduos que prefeririam assumir culpa de todas as crueldades, injustiças e desastres legitimados em seu nome a reconhecer a sua própria insignificância e impotência no fluxo cósmico que persegue o seu curso, indiferente às suas vontades e ideias.

 

BERLIN, Isaiah. O Ouriço e a Raposa, Ensaio sobre a Visão da História de Tolstói. 1ª ed. Lisboa: Guerra e Paz, 2020.

 

Por: Celeste Sampaio

Isaiah Berlin . O livre arbítrio

20.11.22

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O livre arbítrio é uma ilusão que não pode ser descartada, mas, como afirmaram grandes filósofos, não deixa de ser uma ilusão, e deriva unicamente da ignorância das causas verdadeiras. Quanto mais sabemos acerca das circunstâncias de um acto, mais afastado de nós está esse acto no tempo, mais difícil é evitar as suas consequências; quanto mais um facto está solidamente cravado no mundo real em que vivemos, menos conseguimos imaginar qual teria sido o rumo das coisas se algo de diferente tivesse acontecido. Por ora, parece inevitável: pensar de outra maneira perturbaria muitíssimo a ordem do nosso mundo. Quanto mais proximamente relacionamos um acto e o seu contexto, menos livre parece ser o seu actor, menos responsável pelo acto que praticou, e menos dispostos nos encontramos para o julgar confiável ou condenável. O facto de que nunca havemos de identificar todas as causas e relacionar todos os actos humanos com as circunstâncias que os condicionam não implica que estes sejam livres, apenas que nunca havemos de saber como se tornam necessários.

 

BERLIN, Isaiah. O Ouriço e a Raposa, Ensaio sobre a Visão da História de Tolstói. 1ª ed. Lisboa: Guerra e Paz, 2020.

 

Por: Celeste Sampaio

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