Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alma do Diabo

Alma do Diabo

4

03.10.22
 Dois corpos, lado a lado, dispostos na vertical. Envolve-os o ar livre, desocupado. Podemos pensar no espaço como a fronteira entre os seres, vivos ou inanimados. O espaço serve para ocupar e dividir. Aqui vemos dois homens a utilizar os braços como ponte. Tentam enganar-nos, somos levados a pensar que são o mesmo. Após o susto inicial, entendemos que este monstro de quatro pernas é ilusão. Duas pessoas não podem ocupar um sítio em simultâneo. O acto sexual viola esta regra: (...)

3

19.09.22
Definir é excluir. Os atributos de um objecto limitam-no. São como uma barreira que o separa do mundo. Quando observas, restringes. Capturas alguém numa armadilha mental. Esticas o dedo indicador e o homem destaca-se: - Óculos; - Bigode; - Fato-de-macaco; - Corpo com um metro e setenta e sete centímetros de altura. O transeunte olha-te, surpreendido, revelado. A alienação resulta da consciência do que nos separa dos outros. Não tivesses identidade, não te sentirias só. Os seres inanimados (...)

2

05.08.22
Aos dezassete anos tinha a cabeça iluminada por poemas pujantes de significado obscuro que prometiam a imortalidade de um nome literário. Pereceria num duelo pela honra de alguém vagamente amado que vagamente o recordaria quando o caso lhe chegasse aos ouvidos. A juventude interrompida é uma tragédia celebrada. Aos setenta e oito anos, aposentado da Função Pública, passa os dias no cadeirão, junto à janela, sob o olhar atento da defunta emoldurada que lhe deu três filhos, um (...)

1

22.07.22
Há um conflito entre o mocho e o homem. O mocho abre as asas e o homem abre fogo. Relâmpago, trovão e queda. O corpo com penas balança na cintura. Crepitar de passos em folhas secas até ao horizonte. Na ausência do Homem, a seiva flui, a Natureza regressa. Por: Augusto Bessa